Coisas que aprendi morando sozinha
Morar sozinha era uma coisa que eu queria muito. Quando saí de Belo Horizonte para São Paulo, eu estava animada com a faculdade de Administração, com o trabalho na internet e, principalmente, com a ideia de ter meu próprio espaço.
E não sou a única: em 2022, 15,9% das unidades domésticas brasileiras eram compostas por apenas uma pessoa, segundo o IBGE.
Só que uma coisa é imaginar como vai ser. Outra é descobrir que agora você precisa lembrar de pagar a conta de luz, comprar papel higiênico, resolver a torneira que começou a pingar e decidir o que vai comer no jantar. Tudo isso na mesma semana.
Foi assim que comecei a aprender, na prática, algumas coisas que ninguém explica muito quando fala sobre morar sozinha. Algumas foram ótimas. Outras foram pequenos choques de realidade.
E, depois de um tempo, percebi que a vida independente não precisa ser perfeita para ser boa.
A vida adulta real não vem com manual
Uma das primeiras coisas que aprendi morando sozinha foi que ninguém vai ficar lembrando você de tudo.
Em casa, algumas responsabilidades simplesmente aconteciam. A louça aparecia limpa, a roupa era lavada, os produtos de limpeza eram repostos. Quando você passa a morar sozinha, começa a perceber quantas pequenas tarefas existem por trás de uma casa funcionando normalmente.
No começo, eu esquecia algumas coisas. Já aconteceu de perceber que determinado produto tinha acabado justamente quando precisava dele. Também já deixei uma tarefa para depois e, quando vi, tinha acumulado mais três.
Isso parece específico demais, mas acontece.
Para onde vai tanto dinheiro?
Eu achava que tinha uma noção razoável dos meus gastos. Até começar a pagar tudo sozinha.
Aluguel é só uma parte. Depois vêm condomínio, IPTU, luz, água, internet, mercado, produtos de limpeza e todas aquelas pequenas compras que parecem inofensivas quando acontecem separadamente.
E comida foi uma das coisas que mais me surpreendeu.
No primeiro mês, tentei cozinhar praticamente todos os dias. Só que faculdade, trabalho e rotina apertada não ajudaram muito. Em uma semana particularmente corrida, pedi delivery durante seis dias. Quando olhei a fatura e vi R$ 873,45 gastos com comida, levei aquele susto que faz você abrir o aplicativo do banco mais de uma vez para conferir se estava olhando certo.
Depois disso, comecei a prestar muito mais atenção no meu orçamento.
Passei a planejar melhor as compras e a pensar no que realmente precisava antes de sair comprando. Para quem está começando a morar sozinha, também vale ter uma noção dos gastos com produtos de limpeza e manutenção da casa, porque eles entram no orçamento e nem sempre são lembrados.
Se você também está tentando colocar as contas em ordem, vale conferir como organizar a vida adulta sem planilha, porque dá para deixar a rotina financeira mais simples sem transformar sua vida em uma tabela enorme.
A casa não vai se arrumar sozinha
Essa foi outra descoberta.
A louça não desaparece. A roupa não vai para a máquina sozinha. O lixo não percebe que está cheio e decide sair de casa.
Eu sei, parece óbvio. Mas é diferente quando você passa a ser a única pessoa responsável por tudo isso.
Com o tempo, criei pequenas rotinas. Não faço uma faxina gigantesca todos os dias, até porque isso seria completamente inviável para mim. Prefiro resolver algumas coisas durante a semana para não deixar tudo acumular.
E ainda assim tem dias em que a louça fica na pia por mais tempo do que deveria. Normal.
Meu cachorro, Theo, também ajuda a deixar a casa movimentada. Mas, infelizmente, ainda não aprendeu a lavar roupa.

Morar sozinha dá solidão?
Dá, às vezes.
Tem dias em que eu chego em casa depois de passar horas cercada de pessoas e gosto muito de encontrar meu apartamento silencioso. Em outros, entro pela porta e penso que seria bom ter alguém ali para conversar sobre alguma coisa completamente aleatória.
Nos primeiros meses, eu sentia mais esse silêncio.
Comecei a deixar televisão ou música ligada quase sempre, principalmente à noite. Aos poucos, fui me acostumando e descobrindo que ficar sozinha não precisava significar necessariamente me sentir sozinha.
Qual é a diferença entre solidão e solitude?
Para mim, essa foi uma das mudanças mais interessantes de morar sozinha.
Solidão é quando você sente falta de companhia e isso incomoda. Solitude é quando você escolhe ficar sozinha e aproveita aquele tempo.
Não significa que eu virei uma pessoa que ama passar todos os dias sozinha. Muito pelo contrário. Eu gosto de encontrar meus amigos, conversar com a minha família e sair de casa.
Mas comecei a gostar também de algumas coisas que faço sozinha.
Tomar café com calma, ler um livro, assistir a alguma coisa que eu realmente quero assistir ou simplesmente ficar um tempo sem conversar com ninguém. Nem sempre acontece de forma planejada. Às vezes eu só percebo que estou ali, quieta, e está tudo bem.
O que fazer quando você começa a gostar da própria companhia?
Eu comecei a testar coisas que já tinha vontade de fazer e sempre acabava deixando para depois.
Passei a ler mais, ouvir podcasts, testar receitas e até ficar mais tempo escolhendo o que queria assistir sem precisar negociar o controle da televisão.
Uma coisa simples que passei a gostar bastante foi tomar café da manhã na varanda. Não faço isso todos os dias, mas quando tenho tempo, é muito gostoso.
Também comecei a perceber melhor o que eu realmente gosto. Quando você mora com outras pessoas, muitas decisões são compartilhadas. Morando sozinha, você acaba tendo mais espaço para experimentar.
E sim, algumas experiências na cozinha deram muito errado. Faz parte.
Como organizar a casa e aprender a cozinhar morando sozinha
Organização virou uma necessidade para mim depois da mudança.
Não porque eu queira deixar tudo impecável o tempo inteiro, mas porque uma casa desorganizada começa a atrapalhar outras áreas da rotina. Se eu deixo tudo para depois durante vários dias, chega uma hora em que parece que tenho vinte coisas para resolver de uma vez.
Minha solução foi criar uma rotina simples.
Tenho algumas tarefas que tento fazer durante a semana e outras que ficam para determinados dias. Não sigo isso perfeitamente. Tem semanas em que funciona muito bem e outras em que eu simplesmente saio do planejamento.
O importante foi parar de tentar copiar aquelas rotinas perfeitas que aparecem na internet.
Minha faculdade e meu trabalho não têm a mesma rotina todos os dias. Então meu jeito de organizar a casa também não precisa ser igual todos os dias.
Para controlar algumas coisas, uso o Mobills e, para tarefas menores, o aplicativo de notas do celular resolve praticamente tudo.
E a cozinha?
Antes de morar sozinha, eu não dava tanta importância para cozinhar.
Era muito fácil pensar em pedir alguma coisa quando eu estava cansada. O problema é que fazer isso várias vezes começa a pesar bastante no orçamento.
Depois daquele mês do delivery, comecei a planejar algumas refeições.
Nada muito elaborado. Escolho algumas opções para a semana, faço uma lista de compras e tento aproveitar os mesmos ingredientes em mais de uma refeição.
Também aprendi a cozinhar porções menores. Quando você cozinha para uma pessoa, é muito fácil comprar um monte de ingredientes e depois descobrir que metade estragou na geladeira.
Ainda estou aprendendo. Algumas receitas ficam ótimas, outras nem tanto. Mas hoje me sinto muito mais confortável na cozinha do que quando me mudei.
E cozinhar em casa realmente fez diferença nos meus gastos.
Se você também está tentando deixar a rotina doméstica mais prática, organização da casa é um ótimo assunto para explorar e pode complementar este conteúdo.
O que fazer quando aparece um perrengue em casa?
Morar sozinha também significa descobrir que pequenos problemas aparecem justamente quando você menos espera.
Uma lâmpada que queima, uma torneira que começa a vazar, um eletrodoméstico que para de funcionar ou algum problema elétrico que você simplesmente não sabe resolver.
Uma vez, minha amiga Bia, da faculdade, me ligou desesperada de madrugada porque o chuveiro elétrico do apartamento dela tinha parado de funcionar. Ela não sabia onde desligar a energia nem tinha contato de alguém que pudesse ajudar.
Depois disso, comecei a prestar mais atenção nessas coisas.
Hoje tenho uma lista de contatos de prestadores de serviço que já usei ou que foram indicados por pessoas de confiança. Também sei onde ficam algumas coisas importantes do apartamento, como a chave geral de energia.
Não significa que eu saiba consertar tudo. Longe disso.
Mas saber quem chamar e o que fazer primeiro já evita bastante desespero.
Ter um plano B ajuda muito
Quando você mora sozinha, é bom pensar um pouco antes de precisar.
Ter uma pequena reserva para emergências, guardar contatos importantes e saber onde estão documentos, chaves e informações do apartamento são coisas simples que fazem diferença quando surge algum problema.
Também comecei a entender melhor a importância de não gastar todo o dinheiro disponível no mês. Sempre pode aparecer alguma coisa que você não estava esperando.
Isso vale principalmente para quem está começando a vida independente.

Como deixar o apartamento com a sua cara
Outra parte de morar sozinha que eu gostei bastante foi poder montar meu espaço do meu jeito.
Não estou falando de comprar tudo de uma vez ou transformar o apartamento em uma página de decoração. Aliás, meu apartamento ainda está longe de parecer aqueles ambientes perfeitos das fotos.
Mas aos poucos fui colocando coisas que realmente gosto.
Escolhi algumas cores que me agradam, coloquei plantas e fui acrescentando objetos que têm algum significado para mim. Também trouxe algumas almofadas de crochê que eram da minha avó, de Belo Horizonte.
São detalhes pequenos, mas fazem o apartamento parecer mais meu.
E não precisa ter pressa. Quando você acabou de se mudar, é normal ainda não saber exatamente como quer organizar cada espaço. Algumas coisas você só descobre depois de morar ali por um tempo.
Uma decoração bonita ajuda, mas funcionalidade também conta muito. Não adianta ter uma cozinha linda se você não consegue encontrar uma colher sem abrir cinco gavetas.
O que morar sozinha muda na vida adulta?
Acho que a principal mudança foi perceber que liberdade e responsabilidade aparecem juntas.
Eu posso decidir o que vou comer, quando vou dormir, como vou organizar minha casa e o que quero fazer no fim de semana. Mas também sou eu quem precisa pagar as contas, resolver os problemas e lembrar que acabou o detergente.
Essa combinação me fez amadurecer bastante.
Não no sentido de virar uma pessoa completamente organizada e responsável de um dia para o outro. Isso definitivamente não aconteceu.
Na verdade, morar sozinha também me mostrou quantas coisas eu ainda precisava aprender.
Tem dias em que eu organizo tudo e fico muito satisfeita comigo mesma. Em outros, tenho uma pia cheia de louça, uma roupa para guardar e nenhuma vontade de fazer qualquer uma dessas coisas.
E tudo bem. A vida real é bem menos organizada do que uma lista de tarefas.
Também percebi que morar em uma cidade grande exige bastante planejamento financeiro. O aluguel, por exemplo, pode representar uma parte significativa da renda mensal, especialmente em lugares como São Paulo. Por isso, antes de tomar a decisão de morar sozinha, é importante colocar no papel os custos que realmente fazem parte da sua rotina.
No meu caso, aprender a controlar melhor o dinheiro, cozinhar, organizar a casa e resolver pequenos problemas aumentou bastante a minha confiança.
Não porque eu tenha aprendido a fazer tudo sozinha, mas porque agora sei que consigo procurar uma solução quando alguma coisa acontece.
Afinal, vale a pena morar sozinha?
Para mim, sim.
Mas não acho que morar sozinha seja automaticamente melhor do que morar com a família, com amigos ou com outras pessoas. Cada pessoa tem uma realidade diferente, e a decisão envolve dinheiro, trabalho, estudos, segurança e vários outros fatores.
O que posso dizer é que morar sozinha me ensinou coisas que eu provavelmente demoraria muito mais para aprender de outra forma.
Aprendi a olhar melhor para meus gastos, a cuidar da minha casa, a cozinhar, a resolver pequenos problemas e, principalmente, a perceber como gosto de passar meu tempo.
Também aprendi que não preciso fazer tudo perfeitamente.
Às vezes o jantar é uma receita que deu certo. Às vezes é uma coisa congelada que estava no freezer há duas semanas. Tem dia de casa organizada e dia de roupa acumulada na cadeira.
Faz parte.
No final, acho que essa foi uma das coisas mais importantes que aprendi morando sozinha: independência não significa saber fazer tudo. Significa conseguir se virar, pedir ajuda quando precisar e ir aprendendo pelo caminho.
E ainda tenho bastante coisa para aprender.
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